Como perder a timidez e ter mais confiança? (Guia Completo)

Eduardo Santorini

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O gato comeu sua língua? Você não tá sozinho.

Alguns anos atrás, eu nunca tinha aparecido na TV nem falado na frente de uma grande plateia. Eu era muito tímido e, por isso, sempre ficava calado no meu canto. Ou, nas raras vezes quando abria a boca, parecia que eu sempre falava besteira. Isso aconteceu por anos.

Não era assim só no trabalho. Quantos de nós já passamos por isso quando vamos para uma festa e nos sentimos um peixe fora da água? Ou pior, quando estamos solteiros e tentamos conhecer alguém num bar?

Minha timidez era tanta que uma vez cheguei numa festa antes dos meus amigos e fiquei “escondido” no banheiro, esperando algum conhecido chegar.

Durante minha infância e adolescência eu tive poucos amigos. Preferia o refúgio de atividades que eu não precisava me interagir.

Somente anos mais tarde, quando adulto, é que percebi que a timidez era um problema na minha vida, que eu precisava encarar. Não dava pra continuar como tava.

Situações que parecem simples para os extrovertidos, podem ser o fim do mundo para quem é tímido: puxar assunto com desconhecidos, fazer novos amigos, começar a namorar.

Infelizmente muitos dos livros e artigos na internet não têm uma abordagem prática para lidar com a timidez. Alguns psicólogos passam tanto tempo nos consultórios e se esquecem do mundo real, longe das teorias de Freud.

Eu não queria interpretar sonhos! Eu queria algo prático. Depois de um tempo andando em círculos, resolvi tentar algo diferente.

Eu tava disposto a dar um jeito nesta parte da minha vida e, por isso, cada semana tentava uma nova forma de me socializar.

No início, queria apenas ter confiança para conversar com garotas nos bares (sim, na minha época de solteiro, as pessoas não se conheciam por aplicativos). Mas logo percebi que aquela habilidade que eu estava construindo, ia muito além da paquera…

… até o ponto em que eu fui parar na televisão!

Rede nacional, bro!

Algumas das minhas entrevistas na TV: De Frente Com Gabi, Mais Você com Ana Maria Braga, Encontro com Fátima Bernardes e Luciana Gimenez.

Globo, SBT, Record, RedeTV…

Algumas vezes eu ainda não consigo acreditar nisso — porque enquanto a grande parte do mundo enxerga Eduardo Santorini como empreendedor, autor de livros e coach bem sucedido…

… eu ainda me lembro daquelas situações constrangedoras onde eu gaguejava e não conseguia falar uma única palavra!

Momentos em que eu só apenas passei vergonha.

Mas, por mais tímido que você seja, não precisa ser assim. Vou te mostrar os 3 passos que eu usei pra mandar minha timidez pra escanteio num segundo.

Mas antes, preciso te dizer que…

Você não está sozinho!

Eu e você não somos os únicos que nos sentimos inibidos. Tem mais um monte de gente acanhada por aí … alguns que você nem imaginaria. Profissionais bem sucedidos, que se expressam com tanta confiança, que nem parecem tímidos.

Na verdade, segundo uma pesquisa da USP, mais da metade das pessoas se consideram tímidas. E mais, cerca de 95% das pessoas dizem que já se sentiram tímidas em algum momento da vida… É um montão de gente!

Quando falamos em vencer a timidez, isso não significa que você vai se tornar um tagarela que sairá por aí falando sem parar. Você não precisa — nem deve — mudar quem você é.

Mesmo aqueles que não se consideram tímidos no dia-a-dia, ficam inseguros em situações específicas. Falar em público está aí para comprovar isso.

Um dos clientes que eu tive no meu workshop um tempo atrás era cirurgião, referência na área dele e que, algumas vezes era convidado para dar aulas na universidade e fazia isso com total naturalidade.

No entanto, quando ele saia do hospital ou estava fora do ambiente de trabalho, as coisas mudavam. Ele se sentia inibido para puxar assunto com desconhecidos quando saia à noite ou quando saia para um encontro com alguma garota, por exemplo… ambas, situações que ele não se sentia confiante.

O que é a timidez? Por que somos tímidos? É possível deixarmos de ser tímidos?

A timidez é mais um hábito do que uma característica pessoal imutável — da mesma forma que a confiança, força de vontade ou disciplina.

Perder a timidez é como um músculo … é algo que pode ser praticado, exercitado, fortalecido. Mas assim como qualquer exercício físico, sempre é algo difícil e que exige trabalho constante.

Mas o que realmente é a timidez?

É mais fácil definir a timidez por seus sintomas, as reações físicas que ela causa. Você sentirá desconforto, medo, acanhamento, apreensão ao lidar com outras pessoas. Coração dispara, as mãos suam e você sente muito calor — ou muito frio.

Alguns podem sentir a boca seca e ficar mudos. Outros, começam a falar muito rápido, por conta do nervosismo.

Para completar, muitos são dominados por pensamentos negativos, de que as outras pessoas estão te julgando pelo quanto você está nervoso.

Pior de tudo é que, justo nos momentos mais chave de nossas vidas, a timidez nos paralisa. Situações importantes, como:

  • Hora de pedir aumento para o chefe
  • Puxar assunto com uma paquera no bar
  • Fazer uma apresentação em público
  • Puxar assunto com desconhecidos num evento

Enquanto a timidez é algo completamente normal, se não lidarmos com ela de forma apropriada, ela pode ser um obstáculo para situações importantes em nossas vidas: fazer novos amigos, encontrar um namorado ou namorada, crescer na carreira.

Numa sociedade que valoriza a oratória e a comunicação, a timidez é mais um obstáculo a ser superado, do que apenas um “traço” de personalidade.

Os relacionamentos que uma pessoa desenvolve é o fator mais importante para determinar seu sucesso e sua felicidade ao longo da vida. E é difícil criar estes laços se você não aprender a socializar com confiança.

É por isso que agora vamos ver 3 passos práticos para te ajudar a lidar com a timidez.

3 passos para driblar a timidez

Eu, durante quadro no The Noite, com Danilo Gentili… Tenho que confessar que, mesmo após tantos anos estudando a timidez ela é algo que eu tenho que lidar toda semana.

No meu esforço para ter uma uma audiência cada vez maior eu constantemente preciso sair da minha zona de conforto. Sempre surge uma mistura de dúvida pessoal e crítica interna que começa na minha cabeça, dizendo:

“Eu não tô preparado, eu tenho pouca experiência… as pessoas vão me zombar, criticar, jogar pedras.”

Pensamos que só há uma forma de solializar: ser extrovertido, falar demais, não ter acanhamento. Isso é mentira.

A solução para a timidez não é se tornar um tagarela. Você não precisa — nem quer ser — como os extrovertidos e falantes.

Num mundo que não para de falar, há muita gente que adora a companhia de alguém que sabe ouvir e que pensa antes de falar. (Livro recomendado: O Poder dos Quietos)

Ser tímido é muito diferente de ser introvertido. Eu sou introvertido de coração, mas isso não significa que a timidez deva limitar minhas atitudes.

A timidez deve ser colocada em seu devido lugar. Ela não pode limitar nossas escolhas. Não deve impedir que tenhamos uma negociação difícil com o chefe nem que conheçamos novas pessoas.

Talvez eu nunca seja o centro da atenção numa festa — e estou bem assim. Mas após domar minha timidez, eu sei que posso puxar assunto e manter conversas agradáveis com desconhecidos. Eu posso fazer uma apresentação em público com confiança, sem deixar a ansiedade tomar conta. Eu posso entrar numa reunião de trabalho e conseguir uma negociação justa.

Timidez não era quem eu era. Era como eu me portava. Minha sugestão para lidar com a timidez é:

  1. Elimine crenças limitantes
  2. Exercite seu músculo social
  3. Desenvolva a arte de conversar

Vamos começar.


Passo 1: Elimine crenças limitantes

Você já notou como todos ficamos mais soltos quando bebemos?

Minha teoria é que, ao beber, calamos uma vozinha interior de autocrítica e, assim, ficamos mais espontâneos.

Mas tem uma pegadinha!

Se uma ou duas taças de Malbec vão te deixar mais desinibido, uma terceira (provavelmente) te fará pagar mico! (e ninguém sonha em substituir a timidez pelo alcoolismo)

Por isso, vamos começar a atacar a timidez em seu ponto mais fraco: nossos próprios pensamentos e crenças limitantes.

O tímido é faminto pela perfeição.

Como bons tímidos que somos, já estamos carecas de saber que o tímido é reconhecido nos quatro cantos do planeta por sua capacidade crítica. E o principal alvo desse julgamento implacável?

O próprio tímido.

Ele fica no seu canto, ensaiando a frase perfeita pra puxar assunto. Ele pensa antes de falar. O problema é que ele pensa demais e … espera que as coisas saiam perfeitas.

Mas o mundo não funciona assim. As coisas nem sempre vão sair como queremos. Algumas vezes vamos ficar sem assunto. Outras, vamos esquecer o nome das pessoas. É normal.

Todos passam por situações que preferíamos que não tivesse acontecido. Mas esse não é o fim do mundo. Você chega numa festa, cumprimenta todo mundo e, somente depois, se dá conta que tinha meleca no seu nariz!

Ninguém sonha em passar por algo assim, mas a vida continua. Vá ao banheiro, limpe o nariz e siga em frente.

Daí você me perguntaria… mas a primeira impressão não é importante?

Sim, a primeira impressão é fundamental, mas não é tudo. Na verdade, quando o tímido coloca muita pressão para causar uma boa primeira impressão, ele acaba paralisado. O medo de falhar é tanto que, quase sempre ele prefere não fazer nada.

Minha recomendação é não perder tempo com os detalhes. Foque no importante. Se você está num evento e gostaria de conhecer novas pessoas, não fique no canto esperando o momento perfeito para se apresentar. Apenas se aproxime e puxe assunto.

Mas tem um detalhe…

O medo da rejeição é paralisante!

O céu não vai desabar se alguém não gostar de você. Aposto mil estalecas que você também não vai com a cara de um monte de gente por aí!

Querer socializar sem ser rejeitado é como querer entrar na piscina com medo de se molhar. Não faz sentido.

Qual é a situação mais trágica que poderia acontecer? A pessoa me ignorar? Eu perder meu emprego? O pior cenário possível provavelmente não é tão ruim quanto você pensa.

Aceite e aprecie a rejeição.

O medo de ser rejeitado é normal. Todos sentem isso. Este temor também é um teste. Significa que você está diante de uma oportunidade, saindo da sua habitual zona de conforto.

(Recomendado: 3 passos para ter mais confiança)

Passo 2: Exercite seu músculo social.

Quando foi a última vez que você exercitou seu músculo social?

Sua desenvoltura social funciona da mesma forma que a musculatura do seu corpo. Você precisa treinar constantemente para não atrofiar.

Nenhum cidadão com bom senso levaria uma vida sedentária por um ano e depois tentaria correr a São Silvestre. É mais ou menos isso que acontece com aqueles que raramente conversam com as pessoas e, de repente, esperam ter a simpatia do Silvio Santos.

As coisas não são assim, meu caro Watson.

Para piorar, as pessoas nunca foram tão antissociais como agora. Os celulares têm uma (grande) parcela desta culpa…

Sinto dizer, mas todas aquelas mensagens que você mandou por WhatsApp semana passada não te ajudaram a desenvolver seu músculo social. Da mesma forma que assistir ao jogo do Mengão não te transformará em nenhum Neymar na pelada de domingo.

Com o celular fora do caminho, vamos dar uma olhada em como você pode exercitar seu músculo social, superar a timidez e ser mais sociável.

(Leia também: 17 estratégias para fazer amigos na vida adulta, de acordo com a ciência)

O primeiro exercício é interpretar.

Funciona assim: na próxima vez que você se sentir inibido numa situação, imagine que você é um ator interpretando um personagem. Quero dizer, realmente atuar!

Já notou que, quando estão fantasiados, até os mais tímidos ficam desinibidos? Experimente colocar sua “capa imaginária” de super-herói. Ninguém precisa esperar chegar o Carnaval pra socializar!

Isso faz sentido, porque a timidez é causada por um sentimento interno de que você não é interessante o suficiente para estar na conversa. Pensar que está agindo como uma outra pessoa resolve este problema.

Quando quero tirar do caminho minha timidez natural, gosto de imaginar uma pessoa confiante e específica que eu conheço bem — James Bond. (Você só não me verá pedindo martinis batidos por aí.)

Recomendo que você comece a praticar em situações que já fazem parte da sua rotina: com o porteiro do prédio, atendente da farmácia, garçom, motorista do Uber, colegas de trabalho.

Use todas estas situações como um laboratório para socializar. Cumprimente, faça uma pergunta, observe a cor dos olhos, conte uma história.

Com o tempo você ficará bom nisso.

O importante é praticar todos os dias. Ainda que seja apenas dizer “oi” para um desconhecido na rua.

Passo 3: Desenvolva a arte de conversar

Já notou como é fácil ter uma conversa agradável com algumas pessoas, enquanto com outras é um tédio sem fim?

Você nunca mais precisará perguntar “Será que vai chover?” (Imagem: Filme Forrest Gump)

Aqui veremos os “truques” que algumas pessoas têm na cartola para levarem conversas agradáveis, divertidas e que se conectam com os outros. Quando digo pessoas boas de papo, não estou falando daqueles tagarelas que nunca param de falar.

Regra número UM: desenvolva um interesse genuíno pelos outros.

Se você quer que alguém goste de você, pare de falar apenas sobre sua vida, seus interesses, suas conquistas. Não se trata de tentar impressionar as pessoas com suas qualidades. Ao contrário, você deve buscar falar dos interesses do outro, de forma autêntica.

Quer uma forma simples de fazer isso?

Faça perguntas.

Quer deixar suas perguntas ainda mais interessantes?

Fico feliz que tenha tocado no assunto.

Imagine a situação: você chega no trabalho na segunda pela manhã e pergunta para seu colega, “Como você tá?”. Não está ruim a pergunta, mas pode melhorar muito. Compare com esta pergunta, “O que você fez no final de semana?”.

Nota a diferença?

“Como você tá?” é uma pergunta fechada, que a pessoa dará apenas uma resposta monossilábica, que não ajuda manter nenhuma conversa. É o que chamamos de pergunta fechada.

“O que você fez no final de semana?”, por outro lado, é uma pergunta que força a pessoa a elaborar a resposta. Se ela diz que viajou, você pode fazer novas perguntas, saber as histórias. Se a pessoa diz que ficou em casa vendo Netflix, podem trocar dicas de filmes. Esse é um exemplo de pergunta aberta.

É um alívio para os tímidos não ter o foco da conversa nele. Além de ajudar a manter as pessoas ainda mais interessadas na conversa, falando sobre o assunto preferido delas: elas mesmas.

  • “Como você preparou este chá? Me pareceu muito bom!”
  • “Qual é este nó de gravata que você está usando? É diferente e me chamou a atenção?”
  • “O que te motivou a se tornar advogado?”

Exemplos não faltam… único assunto que você tá proibido de falar é o tempo. Depois de ler este artigo, jamais volte a puxar assunto com um “Será que vai chover?”.

Você ficará melhor de papo com o tempo (e a prática).

Comece com as situações mais fáceis possíveis, dizendo “oi”, “bom dia”, “até logo”. Não aquele “oi” tímido que você diz no elevador e que quase não se escuta. Mas aquele “oi” confiante, com energia.

Regra número DOIS: não se limite a conversar apenas com conhecidos.

Converse com todo mundo: seja homem, mulher, criança, idoso.

Nem todos estarão abertos para o papo, mas você irá se surpreender ao descobrir como que a maioria das pessoas são amigáveis.

Regra número TRÊS: prepare-se antes de sair de casa.

Em especial para aquelas situações mais importantes … como uma apresentação em público, entrevista de emprego, encontro com um paquera.

Busque conhecer quem é a outra pessoa, o que a pessoa gosta de fazer, quais os hobbies, o que está acontecendo na vida dela. Se você fuçar o Instagram da pessoa por 3 minutos, já terá assunto preparado por um bom tempo!

“Vi que você viajou para Buenos Aires na semana passada! O que mais curtiu da viagem?”

Mas não limite sua preparação apenas às redes sociais. Nunca é demais dar uma olhada nas notícias do dia. Alguma notícia curiosa te chamou atenção? Especialmente com pessoas que eu não tenho intimidade, evito tópicos sérios ou controversos, como política ou economia.

Fofocas de celebridades costumam gerar boas conversas. Aliás, você já viu as fotos que vazaram da Anitta?

Uma vida com menos timidez e mais confiança

Mesmo depois de anos treinando minhas habilidades sociais, eu ainda sou tímido. Provavelmente nunca deixarei de sentir aquele friozinho na barriga que todo tímido conhece bem.

Mas meus momentos de ansiedade são cada vez mais raros.

Hoje eu posso puxar assunto com desconhecidos com confiança, fazer uma apresentação em público ou mesmo entrar numa negociação delicada sem deixar a timidez me dominar.

Você certamente pode fazer o mesmo!

O caminho é longo. Você precisa treinar muito. Sem a prática constante, você começará a se sentir enferrujado, como uma máquina que não recebeu lubrificação por muito tempo. Mas com paciência, você mostrará pra timidez que você é quem tá no comando!

Grande abraço,

Eduardo Santorini

— Eduardo Santorini